Questões de Vida e Morte: o racismo e a luta global pelas Vidas Negras

 Sharrelle Barber*

Foto do Nexo Jornal

“Estamos morrendo, nosso povo está morrendo …”

-Marielle Franco falando para um grupo de Mulheres Negras na Casa Das Pretas sobre a intervenção militar nas comunidades pobres e negras do Rio de Janeiro, 14 de março de 2018

 

Como uma epidemiologista social que examina as ligações entre as desigualdades raciais e o racismo estrutural na saúde, estou particularmente preocupada com as vidas (muitas vezes truncadas) e as mortes (com muita frequência, violentas) de mulheres e homens negros. Embora minha paixão e compromisso com este trabalho estejam enraizados em minha identidade como uma mulher negra nascida e criada no Sul dos EUA, a urgência renovada em examinar explicitamente o racismo não pode ser dissociada das mortes violentas e das injustas que marcaram minha carreira acadêmica e o resultado disso, ativismo desencadeado pelo movimento Black Lives Matter, que começou cinco anos atrás. Tampouco pode ser separado dos líderes da saúde pública e da comunidade médica – em particular mulheres negras como a Dra. Camara Jones, Dra. Chandra Forde, Dra. Mindy Fullilove e Dra. Mary Bassett – que têm desafiado a nomear o racismo como causa de problemas de saúde e um fator fundamental das desigualdades raciais na morbidade e mortalidade nos Estados Unidos. Como o Dr. Bassett habilmente nos lembra, a forma como estruturamos um problema é inextricável de como o resolvemos. E como meu colega e amigo Dr. Zinzi Bailey observa em uma publicação recente no The Lancet, que “sem uma visão de equidade em saúde e o compromisso de combater o racismo estrutural, as iniquidades em saúde persistirão, frustrando os esforços para eliminar disparidades e melhorar a saúde de todos os grupos…”
Há cerca de dois anos, iniciei uma pesquisa que aplicou essa lente crítica ao Brasil, reconhecendo que a luta contra o racismo e a luta pelo Black Lives é global. Estender o escopo de minha pesquisa para o Brasil não foi exagero; antes, foi uma expansão lógica aprofundada em paralelos impressionantes que observei entre os dois contextos. Como nos EUA, a história do Brasil está enraizada no legado violento da escravidão, já que os colonizadores portugueses importaram acima de cinco milhões de africanos ocidentais e centrais como escravos durante seus quase 300 anos de história no país, 10 vezes o número importado pelos Estados Unidos. O Brasil também foi o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888, e de acordo com dados do censo de 2010, tem a maior população descendente de africanos fora do continente africano. E embora as narrativas dominantes perpetuem o mito de uma “democracia racial” no Brasil, o racismo e a discriminação no país se aprofundam e se manifestam em sistemas e estruturas de poder e privilégio que mantêm o status marginalizado de indivíduos de ascendência africana.
Meu trabalho colaborativo recente examinando a segregação residencial – uma das manifestações mais visíveis do racismo estrutural – e suas ligações com doenças crônicas usando dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil) foi minha primeira tentativa de demonstrar, empiricamente, como o racismo é incorporada no Brasil. Mas foi em 14 de março de 2018 que tomei consciência de que, assim como os Estados Unidos, o racismo no Brasil pode ser violento e mortal.
Por sugestão de uma colega, participei de um evento no centro do Rio de Janeiro, intitulado “Jovens Mulheres Negras Movendo Estruturas de Poder” como parte da Campanha 21 Dias Contra o Racismo, que aconteceu em várias cidades do Brasil. Minha colega me incentivou a participar do evento para aprofundar minha compreensão do ativismo anti-racista de base no Rio e encontrar Marielle Franco, um encontro que se mostraria transformador.
Marielle Franco era uma ativista dos direitos humanos, negra, lésbica e feminista, criada na favela da Maré, localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro. Em 2016, ela foi eleita vereadora, recebendo a quinta maior contagem de votos de 51 vereadores eleitos naquele ano. Marielle era a única pessoa negra no conselho da cidade do Rio e fazia parte dos meros 5% de mulheres negras e indígenas ocupando postos de poder no governo local no Brasil. A plataforma política de Marielle estava enraizada no antigo legado do ativismo feminista negro no Brasil, e refletiu uma ética que valorizava a vida daqueles que, literalmente, foram forçados à margem da sociedade brasileira: negros e negras, mulheres, pobres e indivíduos que se identificam como LGBTQ +.
Marielle também foi muito crítica em relação às políticas de segurança pública do Brasil, que, segundo ela, serviram para “controlar e repreender” comunidades negras e pobres e alimentar o crescente complexo industrial prisional do Brasil. A denúncia de Marielle sobre a violência sancionada pelo Estado ecoou o ativismo contra o genocídio negro no Brasil, que se estende por décadas e, na sua forma contemporânea, é incorporado no Vidas Negras, movimento de base para vidas negras no Brasil. Como uma socióloga com formação em uma das instituições mais prestigiadas Brasil – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – ela trouxe uma análise crítica para a questão e compilou dados empíricos para ilustrar que “Racismo não é uma opinião”:
• O Brasil tem uma população carcerária de 622 milhões de pessoas, a quarta maior população carcerária do mundo.
• Mais de 67% das mulheres presas são negras e em três estados, as mulheres negras representam 90% do total de mulheres na prisão.
• A cada 23 minutos um jovem negro é morto no Brasil, muitas vezes nas mãos da polícia.
A política e a defesa de Marielle não eram apenas sobre os números. Durante o trabalho no início de sua carreira na Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, Marielle reuniu-se e defendeu rotineiramente as famílias das vítimas da brutalidade policial. Ela entendeu, em primeira mão, a realidade angustiante de perder um ente querido para a violência sem sentido e estava comprometida em usar sua voz e sua plataforma para fazer a diferença. Em fevereiro de 2018, sua crítica pública à violência sancionada pelo Estado intensificou-se quando o governo federal implementou uma intervenção que colocou as forças militares no comando da polícia local no Rio. Em seu pronunciamento público da intervenção federal, ela se certificou de que os nomes e os rostos afetados fossem conhecidos. Em um artigo submetido ao Jornal do Brasil na manhã de 14 de março, ela escreveu uma sinopse contundente e crítica à intervenção e ousou de “dizer os nomes” das mulheres negras que foram mortas devido ao que ela descreveu como uma “guerra sem sentido”: Alba Valéria Machado. Natalina da Conceição. Janaína da Silva Oliveira. Tainá dos Santos.
Ela passou a dizer que: “As mulheres negras que vivem nas periferias perdem seus filhos para essa crueldade mortal … E as mortes têm uma identidade racial consistente, classe social e vizinhança de moradia”.
 
Além disso, ela afirmou que a “violência” é um subproduto direto de qualidades entrincheiradas, e não pode ser resolvida com armas, mas com políticas:
“Sem dúvida, a segurança pública não deve mais ser perseguida com armas, mas com políticas públicas em todas as áreas: saúde, educação, cultura e geração de emprego e renda.”
Na reunião de jovens mulheres negras em 14 de março, Marielle chamou a atenção para a violência em curso. Mas como a líder feroz e empoderadora que ela era, ela via aquelas reunidas na sala como a personificação do poder, força e resistência, necessários para provocar mudanças radicais, afirmando que era necessário que as mulheres negras “ocupassem todos os lugares com nossa vida”. Só então vidas negras, vidas de mulheres, vidas pobres e vidas “LGBTQ+” realmente importam.
Deixei o evento inspirado e maravilhado com Marielle e as corajosas Mulheres Negras que encontrei na Casa Das Pretas. Mas menos de uma hora depois, a vida foi literalmente sugada de dentro de mim, quando recebi a notícia de que quatro balas na cabeça em um assassinato político haviam tirado sua vida e a vida de seu motorista Anderson Gomes.
Para dizer o mínimo, esse momento me mudou. Isso me sacudiu ao meu núcleo. Mas, assim como as mortes sem sentido de Sandra, Charleena, Nia e inúmeras outras mulheres e homens negros, a morte de Marielle desencadeou em mim um compromisso ainda mais profundo de continuar minha pesquisa examinando o racismo estrutural e as desigualdades de saúde tanto no país quanto no exterior. Para mim, isso significa nomear e desafiar o racismo em nosso discurso científico e público, usando dados para tornar o invisível visível, mobilizando dados e pesquisas para ação e defesa, construindo redes de pesquisadores negras/os comprometidos com esse trabalho e garantindo que nosso diálogo sobre o racismo, as desigualdades na saúde e a luta pelas Vidas Negras é, de fato, global. Para mim, este trabalho literalmente se tornou uma questão de vida e morte.
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*Social Epidemiologist | Faculty at Drexel Dornsife SPH | Scholar-Activist Examining Racism & Health Inequalities

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